... então a ninfa Ametista, por cruzar o caminho do Deus mediúnico, foi transformada em cristal, objeto de contemplação mergulhado no vinho, salvo assim da fúria dionisíaca. Fim. Ametista teve a ousadia de atravessar os obscuros territórios satyrianos, pagando por sua coragem a imobilidade. A ninfa se salva da fúria e fica imóvel, a mercê das vontades do extasiado deus.
Que Dioniso a possuísse, que a dilacerasse no ritual, que espalhasse sua carne entre as bacantes: transformá-la em pedra foi o pior dos castigos. Quantas outras ninfas não devem ter-se transformado em tantas outras pedras pelo gesto singelo de caminhar os caminhos do Deus? Qual o preço de se entregar em oferenda em um ritual?
Ametista continua pobre serva, imóvel em uma taça de vinho, embriagada pelo seu silêncio de pedra. Gesto extremo da crueldade do mais contraditório deus do Olimpo, pai da beleza irmã da destruição. Parece que Dioniso ainda não aprendeu os serenos caminhos de seus irmãos, e prossegue insistindo em sua a toa insanidade.
Como perdoar a assustadora sublimidade dionisíaca? Quando há mãos atadas sem ação e um coração na mão? Oferendas esquecidas do mar. O antigo delírio de bacantes. Sacerdotes de um deus ancestral, invisível, e desconhecidamente certo. A devoção ao deus teatral é um perigoso caminho único de escolhas.
A religiosa devoção é paga com desprezo e abandono. Essa arte cruel de dedicar toda a vida à humanidade e a paixão existentes nuns poucos metros de tablado. E ser artista no convívio do inferno e céu de todo dia. Quanto é ganho? Quando se percebe o grito de protesto engasgado, já se está no palco, sob as luzes da ribalta, esperando o fim trágico ou cômico, sempre cênico.
A maior ingratidão é saber que depois de escolhido o amor, é impossível retroceder. O amor permanece ainda naquele momento em que o ser amado, objeto de culto, transforma o servo e amante em pedra, imóvel sacerdote. O amor ao teatro pode ser o maior exemplo de amores brutos e cruéis, mas contraditoriamente, como tudo no ritual, cercado de estonteantes belezas e delicadezas. O erro comum das ninfas é acreditar que se pode ser tão grande quanto o amor. Não pode: o amor é bem maior, rasga as veias e se expande. Mas o erro é um mestre intuitivo.
Que outra escolha, então, senão aceitar submisso as vontades do Deus? Envolto na líquida ternura ametista, esperançoso de rever um dia a liberdade. A liberdade de escolher o desamor, o sagrado direito do não. Quem sabe um dia. Quando o corpo enfim se libertar da alma cristalina e escorrer vermelho no chão grego imortal. Ametista cruzou o caminho do deus mediúnico, morreu pedra, e o resto foi silêncio. Disse o poeta que morrer não dói, que o sol morre todos os dias e é lindo, e a ultima palavra é a do poeta e a última palavra é a que fica. A ultima palavra de Ametista?
- Resisto!
(vê, quantas história ainda temos para amar?)
Que Dioniso a possuísse, que a dilacerasse no ritual, que espalhasse sua carne entre as bacantes: transformá-la em pedra foi o pior dos castigos. Quantas outras ninfas não devem ter-se transformado em tantas outras pedras pelo gesto singelo de caminhar os caminhos do Deus? Qual o preço de se entregar em oferenda em um ritual?
Ametista continua pobre serva, imóvel em uma taça de vinho, embriagada pelo seu silêncio de pedra. Gesto extremo da crueldade do mais contraditório deus do Olimpo, pai da beleza irmã da destruição. Parece que Dioniso ainda não aprendeu os serenos caminhos de seus irmãos, e prossegue insistindo em sua a toa insanidade.
Como perdoar a assustadora sublimidade dionisíaca? Quando há mãos atadas sem ação e um coração na mão? Oferendas esquecidas do mar. O antigo delírio de bacantes. Sacerdotes de um deus ancestral, invisível, e desconhecidamente certo. A devoção ao deus teatral é um perigoso caminho único de escolhas.
A religiosa devoção é paga com desprezo e abandono. Essa arte cruel de dedicar toda a vida à humanidade e a paixão existentes nuns poucos metros de tablado. E ser artista no convívio do inferno e céu de todo dia. Quanto é ganho? Quando se percebe o grito de protesto engasgado, já se está no palco, sob as luzes da ribalta, esperando o fim trágico ou cômico, sempre cênico.
A maior ingratidão é saber que depois de escolhido o amor, é impossível retroceder. O amor permanece ainda naquele momento em que o ser amado, objeto de culto, transforma o servo e amante em pedra, imóvel sacerdote. O amor ao teatro pode ser o maior exemplo de amores brutos e cruéis, mas contraditoriamente, como tudo no ritual, cercado de estonteantes belezas e delicadezas. O erro comum das ninfas é acreditar que se pode ser tão grande quanto o amor. Não pode: o amor é bem maior, rasga as veias e se expande. Mas o erro é um mestre intuitivo.
Que outra escolha, então, senão aceitar submisso as vontades do Deus? Envolto na líquida ternura ametista, esperançoso de rever um dia a liberdade. A liberdade de escolher o desamor, o sagrado direito do não. Quem sabe um dia. Quando o corpo enfim se libertar da alma cristalina e escorrer vermelho no chão grego imortal. Ametista cruzou o caminho do deus mediúnico, morreu pedra, e o resto foi silêncio. Disse o poeta que morrer não dói, que o sol morre todos os dias e é lindo, e a ultima palavra é a do poeta e a última palavra é a que fica. A ultima palavra de Ametista?
- Resisto!
(vê, quantas história ainda temos para amar?)
Jacqueline Novaes